Geolocalização: aplicativo conecta moradores com ações solidárias nas periferias de SP

Através do aplicativo RAH, desenvolvido pela Rede de Apoio Humanitário nas e das Periferias, moradores estão se conectando com ações solidárias em andamento nas ruas próximas de suas casas. Com isso, eles também descobrem formas de apoiar coletivos e movimento sociais que estão organizando doações de suprimentos às famílias afetadas pela pandemia de coronavírus.

Por Tamires Rodrigues 24/07/2020 - 13:16 hs
Foto: Flavinha Lopes
Geolocalização: aplicativo conecta moradores com ações solidárias nas periferias de SP
Território da M´Boi Mirim, zona sul de São Paulo.

Criado por meio de metodologias de georreferenciamento de dados, o app RAH, surge como uma resposta da Rede de Apoio Humanitário nas e das Periferias para o enfrentamento das desigualdades sociais que aumentaram em grande escala nas periferias de São Paulo, devido ao avanço da pandemia de coronavírus nos territórios.

Através de um mapa que listra mais de 70 locais que estão espalhados pelas quebradas da cidade, incluindo as regiões norte, sul, leste e oeste, famílias que estão em condições de vulnerabilidade social podem acessar doações de alimentos e produtos sanitários ao se conectar com os pólos mapeados, que são representados por Associações Comunitárias, Templos Religiosos, Organizações Sociais e Coletivos Culturais.

Antes da pandemia, esses pólos de ações socioculturais já tinham a função de combater as desigualdades sociais em seus territórios, mas com a chegada do coronavírus nas periferias, essa missão precisou de atenção redobrada para atender as necessidades dos moradores que foram afetados de diversas maneiras pela crise econômica e política em curso no Brasil.


Reprodução: Mapa do aplicativo RAH, desenvolvido pela Rede de Apoio Humanitário nas e das Periferias

Envolvido no processo de elaboração do aplicativo, o articulador comunitário, Jesus do santos, 35, morador do Parque Edu Chaves, na zona norte de São Paulo, ressalta que a covid-19 só escancarou a realidade de quem vive nas periferias. E que o aplicativo cumpre a missão de unir quem precisa e quem tá batalhando para reduzir os impactos das desigualdades.

“A gente não vai dar conta de tudo e com o aplicativo as pessoas podem ter uma maior mobilidade né, podem se organizar. Isso foi o que nos motivou, o incomodo que despertou na gente”, conta Santos. Percebendo a extensão do problema, ele entendeu que construir uma rede de apoio digital seria a melhor estratégia para unir força de diversos territórios, para captar recursos e distribuir doações para os moradores que estão cadastrados para receber apoio de ações solidárias.

No app RAH, o mapa de georreferenciamento cumpre uma função estratégica nesse momento de distanciamento social. “Quando a gente reforça a ideia, de aproximar o doador da doadora, da receptora do receptor, dos lugares de vulnerabilidade e risco social que temos, a necessidade é justamente disso, de fazer com que as pessoas se tornem cada vez mais autônomas”, explica o articulador comunitário.

Santos acredita que a utilidade do app não se limita a esse momento de pandemia, mas sim, como uma ferramenta com fim público, que pode ser útil na pós-pandemia também. “Essa é uma ferramenta não só para agora, mas uma ferramenta aí para um bom tempo de nossa sociedade”. Pouco esperançoso sobre as melhorias que teremos futuramente, ele entende que o aplicativo ainda precisa passar por melhoras, pois segundo ele, a rede terá que se fortalecer ainda mais, e o aplicativo também. “A ideia é que a gente possa ampliar as campanhas que a rede tem desenvolvido”.

O impacto das doações geolocalizadas

Irani dias, 49, moradora do Jardim Brasil, na periferia da zona norte, é ativista dos direitos humanos, atuante nos territórios de Vila Sabrina, Jardim Brasil, Vila Zilda e Lauzane Paulista. Ela é uma das colaboradoras da ALMEM - Associação de Luta Por Moradia Estrela da Manhã. A organização está cadastrada no app RAH, e foi impactada pelo recebimento de doações nesse período por intermédio do aplicativo.

“No comecinho, talvez pela grande sensibilização, muita gente doou, a gente conseguiu juntar a vakinha online para arrecadar as cestas e tudo mais. Mas eu creio que agora que passou aquela euforia, as pessoas estão relaxando mais, não estão doando tanto quanto no começo”, conta Irani, que percebe que as arrecadações estão diminuindo muito e umas das suas alternativas hoje é a exposição que o aplicativo possibilita, para conseguir se conectar com doadores e manter as doações as famílias atendidas pela organização.

A articuladora até tentou mobilizar doações por uma comunicação fora do ambiente digital, mas ressalta seu descontentamento. “Eu não recebi um quilo de sal sequer”, e complementa que com o app, o pólo conseguiu algumas doações. “Chegou uma doação pra gente, uma doação bem singela, que a moça se mobilizou com as amigas delas para arrecadar coisas para bebês, ai ela viu numa rede para quem doar que era o nosso contato no Jardim Brasil, o mais próximo dela que está na Vila Maria”, afirma Irani, lembrando, que desta doação, a organização recebeu fraldas, leite, absorventes e sabonetes, produtos que foram direcionados para gestantes do bairro.

Irani ressalta que tem muitos moradores no entorno da organização que não conheciam o seu trabalho e que a partir do app, a exposição do pólo de doações alcançou outros lugares, que nem a própria articuladora consegue imaginar. “Essa moça mesmo que está a dois quarteirões da minha casa, e da associação não conhecia nosso trabalho, e através da rede ela conheceu”.

Embora esteja tendo um bom êxito com o apoio do aplicativo, a articuladora comunitária critica esse cenário, onde é preciso construir um mapa de georreferenciamento para expor uma necessidade que deveria ser o centro das atenções da sociedade e do poder público. “A necessidade ela existe, ela é como a violência, você coloca uma lupa nos períodos onde ela está em evidência e depois some, mas ela continua existindo ali”, argumenta Irani.

Inteligência de dados e periferias

Atualmente, a Rede de Apoio Humanitário nas e das Periferias tem um grupo de trabalho focado no desenvolvimento de tecnologias. O desenvolvedor do aplicativo e uns dos articuladores desse grupo é Gilmar Cintra, 31, moradora da Brasilândia, periferias da zona norte de São Paulo. Ele é programador e estudante de Engenharia da Computação na Univesp, Universidade Virtual do Estado de São Paulo.

Cintra diz que a tecnologia como um instrumento para gerar transformação social. E é a partir deste intuito que ele codificou as ideias da rede, estruturou e organizou os dados. A fase de elaboração que o aplicativo passou foi de desenho do protótipo, elaboração de proposta, desenvolvimento e fase de testes. “A gente está trabalhando em outra versão, com melhorias que torne mais fácil também, e tenha mais informações da rede em si”, afirma Cintra.  

Segundo o desenvolvedor, umas das suas maiores dificuldades quando estava codificando as ideias da rede foi na captação dos dados. Ele acredita que a periferia tem uma grande defasagem de dados estruturados para se trabalhar.  “Aqui na periferia é muito complicado resolver problemas pela simples falta de dados, porque quando você tem os dados, você consegue fazer um mapeamento das coisas e saber onde deve cobrar o poder público, e com a falta desses dados tudo se torna muito mais difícil”, argumenta.

“Quando eu comecei a desenvolver o aplicativo eu queria que a forma da manutenção e de editar as informações fosse de maneira fácil, então eu pensei porque não usar uma planilha online do Google pra fazer isso né, aí eu compartilho a planilha quem tem acesso administrativo para poder editar esses dados e tudo mais”, descreve Cintra, relatando os primeiros processos de elaboração da sua ideia, para encaminhar todos os dados dos pólos que iria estar dentro da plataforma. 

Mas para elaborar a forma como os pólos de doações e o receptor iria se encontrar, Cintra montou uma estratégia computacional para reter informações. Ele automatizou uma planilha do Google, que contém informações básicas sobre os pólos, e a partir do endereço de cada pólo ele elaborou o mapa, buscando a longitude a latitude dos locais, fazendo da planilha a maior fonte de informação do aplicativo. “A gente foi melhorando os dados até ter uma base mais sólida, pra gente poder desenvolver o aplicativo e colocar ele no ar”. 

Segundo o desenvolvedor, a proposta da solução é ser mais que uma aplicação móvel, mas também uma plataforma que tem a capacidade de explorar uma grande quantidade de dados, para mapear e conectar diversos pólos de São Paulo, através de padrões e relacionamento, detectando um ponto de referência de doações onde todos possam acessar por tecnologias simples.