Direitos invisíveis: ações coletivas de prevenção à covid-19 orientam moradores das periferias

Iniciativas de comunicação nos distritos da Brasilândia, Parelheiros, São Mateus e João XXIII, atuam para garantir que a população das periferias e favelas nesses territórios tenha direito à informação. Por meio de ações de comunicação que traduzem os efeitos da pandemia, esses grupos estão investindo na orientação de famílias no portão das casas, na rua ou enviando áudios pelo WhatsApp com dicas e entrevistas sobre como prevenir o contágio de covid-19.

Por Evelyn Vilhena e Vitória Guilhermina 01/07/2020 - 17:30 hs
Foto: Anderson Costa
Direitos invisíveis: ações coletivas de prevenção à covid-19 orientam moradores das periferias
Articuladores comunitários de São Mateus usam grafiti para conscientizar moradores

Sem esperar por uma mudança de narrativa nos canais de comunicação de grandes grupos empresariais e sem depender do apoio do poder público, que deveria seguir a risca o artigo 5º da Constituição Federal, que diz: “todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”, iniciativas de comunicação nas periferias e favelas de São Paulo estão realizando ações informativas em plataformas online e offline para conscientizar os moradores sobre as formas de proteção e prevenção ao contágio do coronavírus.

A frase ‘fique em casa’ não foi pensada para os moradores dos territórios periféricos que precisam sair para trabalhar e são os principais responsáveis pelo funcionamento de diversos serviços essenciais da cidade.

Com mais de 6.980 mortes, a cidade de São Paulo é a recordista em número de óbitos pelo novo coronavírus no país. Nos territórios onde as iniciativas de comunicação estão atuando para orientar a população, os dados sobre os números de mortos divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde mostram a gravidade dos impactos da pandemia.

No distrito de Brasilândia, na zona norte, há cerca de 270 óbitos. Na zona leste, o distrito de São Mateus tem mais de 100 mortes, e na zona oeste já foram registrados mais de 40 óbitos no distrito de Raposo Tavares. Em Parelheiros, mais de 70 pessoas já morreram da doença causada pelo coronavírus. 

Em meio a esse cenário de avanço da pandemia de coronavírus nos territórios periféricos da capital paulista, os noticiários continuam mostrando que nas quebradas a vida segue com a realização de bailes funk, aglomeração de jovens em praças e bares abertos. Mas quem deveria fazer um trabalho de conscientização desse público levando em consideração o seu modo de vida?

Essas iniciativas acreditam na importância de criar um canal de diálogo com os moradores, utilizando a vivência e o olhar de quem faz parte do cotidiano da quebrada como uma aliada para entender as variadas demandas desses locais, transformando esse repertório numa estratégia de comunicação que busca informar a população ao invés de criminalizar moradores e principalmente a juventude desses territórios, que em grande parte sempre enxergaram a rua como um caminho de fuga de diversas situações de conflitos que passam dentro das suas casas.

Em Parelheiros, zona sul, podcast ‘desuniversaliza’ os impactos da pandemia

Dados da Secretaria Municipal de Saúde mostram dos 10 distritos com maior número de mortes em São Paulo, seis deles se encontram na região sul, entre eles estão: Grajaú (267), Capão Redondo (237), Jardim São Luís (195), Jardim Ângela (240), Cidade Ademar (193), e Parelheiros (96).

Como uma alternativa à falta de ações de comunicação voltada aos moradores do território de Parelheiros, o coletivo Arque Perifa, formado por cinco jovens que atuam no distrito, criaram o podcast “Lugar de Quarentena”. A idéia é que as pessoas entendam os seus lugares, ou mesmo escutem outros lugares, sobre os impactos e as vivências no período da pandemia do coronavírus, além de fugir da ideia de que o impacto do vírus se resume apenas a pauta de saúde.

Segundo Laura da Silva, 19, produtora cultural e uma das integrantes do ArquePerifa, nas periferias a pandemia foi apenas uma lupa para várias outras questões e adversidades do cotidiano, e o podcast possibilita novos olhares para esse cenário. “A gente chama em cada episódio do podcast um morador para dar um relato, ou justamente nessa parada de lugar de fala, falar sobre a sua vivência de acordo com o recorte que damos para cada episódio, e também em todos os episódios tem um ativista ou especialista da causa. Normalmente a gente valoriza pessoas que sejam da região, e quando não tem essa possibilidade, a gente chama pessoas que estão pensando sobre isso em outras periferias”.

A gravação do podcast é feita por uma plataforma de videoconferência, e distribuída através de plataformas de áudio e vídeo, além de utilizarem listas de transmissões com uma versão pocket do material para alcançar pessoas que não tem o hábito de ouvir podcast.

Laura reforça que o conteúdo do podcast não ficará acessível somente aos moradores que utilizam plataformas digitais ou celular. “A gente também quer ampliar o Lugar de Quarenta para carro de som, e panfletagem, porque a gente percebe que na nossa região a questão da internet, ou quando se tem, é muito precarizado, acaba fazendo com que a gente não atinja tantos moradores. Então a gente também vai abrir essa frente de tentar comunicar via carro de som”, compartilha.

A jovem conta que um dos objetivos do podcast é ‘desuniversalizar’ os impactos da pandemia. “Não está todo mundo no mesmo barco. Pessoas passam por determinadas situações, por determinadas questões, em níveis diferentes”. Ela também acrescenta: “Quando a gente conversa sobre um assunto que aborda o cotidiano da pessoa, primeiro ela tem uma identificação, tipo ‘eu passo por isso minha vida toda’, ou ‘nossa meu parente passou por isso’, ‘realmente nunca tinha pensado que era um problema’, e partir dessa reflexão a gente começa a engajar”.

Os números de casos confirmados e mortes no distrito de Parelheiros vêm aumentando, mas a capacidade do Hospital Municipal não é o suficiente para atender a quantidade de casos na região. Segundo Laura, o poder público não realiza ações de comunicação na região e isso é uma realidade que antecede o período da pandemia.

Ela afirma que a administração pública local faz publicações nas páginas de redes sociais, mas como prestação de contas sobre o que fizeram. Nunca um diálogo, ou pensando nas demandas da população e demandas da juventude principalmente. “É só uma replicação de uma recomendação geral, e não pensa nas características e necessidades daqui. E acaba que fica para a gente resolver as coisas mesmo”, relata.

A produtora cultural enfatiza que o tom político toma conta dos comunicados oficiais da Subprefeitura local. “Fora os canais oficiais, o que tem de comunicação no bairro é muito não crítico. É sempre realmente divulgando o que os políticos estão fazendo. Acaba que é uma coisa muito política, partidária, do que está sendo feito, muito comprado”, descreve.

Sem poupar críticas a falta de comunicação produzida e distribuída pelo poder público, Laura acredita que o trabalho do coletivo é inspirado num grupo de jornalistas que atuam no distrito de Grajaú, território que faz divisa com Parelheiros. “A gente tem de ajuda assim territórios próximos, como o Periferia em Movimento do Grajaú, cobrindo coisas que tem haver com nossas demandas, e a gente começou agora. Então realmente não tem muito a comunicação do poder público com a juventude, muito menos com o bairro”, finaliza a produtora.

Na Brasilândia, zona norte, trio elétrico realiza ações em parceria com agentes de saúde

Na zona norte de São Paulo, muitas iniciativas têm buscado cobrir lacunas na região, e agora com o coronavírus vem propondo soluções para o enfrentamento da pandemia. Uma dessas iniciativas é a Rede Brasilândia Solidária, que vem atuando no enfrentamento da pandemia com mais de 200 voluntários. Formada por lideranças locais, a rede mantém uma constante articulação com agentes de saúde, assistência social, cultura e educação.


Carro de som na Brasilândia orienta moradores sobre uso de mascarás.

A Brasilândia está entre os 10 distritos com maior número de mortes em São Paulo. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, os óbitos por covid-19 confirmados e suspeitos na Brasilândia somam cerca de 270 óbitos, registrados entre 11 de março e 20 de junho. Os dados mostram um aumento superior a 300% em comparação com os números de 21 de abril, que registra 67 mortes.

Consciente da importância de criar estratégias de enfrentamento a pandemia, a Rede Brasilândia Solidária está organizada em nove núcleos de ação: Saúde, Educação, Comunicação, Juventude, Cultura, Assistência Social, Trabalho e Renda, Captação de Recursos e Pessoa com deficiência. Cada Núcleo, dentro de sua especificidade realiza ações e reuniões para encontrar as melhores maneiras de fazer a divulgação de informações para combater o coronavírus no território.

“Temos uma ação que ocorre quase que cotidianamente que são os carros de som e um trio elétrico que a Rede Brasilândia com ajuda de parceiros circula pelo território. Essas ações são articuladas e organizadas em parceria com as UBS’s e Agentes de Saúde que estão distribuídos nos territórios, e consiste em divulgar, por meio de vinheta produzida pela rede, a necessidade do isolamento possível e a importância de se usar a máscara quando for sair de casa e ter contato com outras pessoas”, afirma Jabes Campos, advogado e dirigente do Instituto Saci – Saberes Culturas e Integração, organização que desenvolve projetos focados em jovens e mulheres em situação de vulnerabilidade social.

Com a possibilidade de circular por todo o bairro, o carro de som e o trio elétrico está em funcionamento desde o início da criação da Rede na Brasilândia. “As ações são realizadas sempre com o apoio logístico e estratégico das UBS, por meio de seus agentes e profissionais de saúde, planejando o trajeto e definindo ruas mais prioritárias para atingir a população. Nos locais aonde não chega o carro de som, a Rede Brasilândia Solidária comprou dois megafones que os agentes usam para a melhor divulgação das ações”, diz o voluntário.

Campos conta que a população de modo geral tem atendido aos apelos da Rede. Mas em relação à juventude local, eles ainda estão procurando um melhor meio de comunicação. O dirigente do Instituto Saci relata que ainda encontra muitos jovens em pequenas aglomerações no território, mas de modo geral tem sido positivo. “A receptividade das ações por parte da população é visível. Tem ajudado e muito na conscientização e entendimento da população para que se proteja. Todas as ações que realizamos entregamos máscaras que recebemos de doações e também máscaras que são confeccionadas por 40 costureiras voluntárias que temos no território”.

O advogado relata não ter conhecimento de ações do poder público pensando em atingir os moradores, principalmente os jovens. “A região já tem carências históricas, o poder público não tem uma atuação robusta, só os serviços de saúde e de educação são visíveis, fora isso os outros serviços são esporádicos”, conta.

A Rede Brasilândia Solidária é formada por diversas associações, coletivos e agentes atuantes no distrito, e juntos assinam uma carta com reivindicações para o território. Entre as ações e reivindicações da Rede está um pedido para instalação de espaços públicos para isolamento. Enquanto isso não acontece, eles seguem espalhando mais de 150 faixas de alerta e prevenção nas ruas, além de arrecadação de alimentos, e entrega de máscaras produzidas por costureiras da região.

No João XXIII, zona oeste, cartilha traduz informações sobre a pandemia

Pensando na ideia de comunicar de morador para morador, um grupo de jovens do João XXIII, um dos bairros do distrito Raposo Tavares, se organizaram coletivamente por meio do cursinho pré-vestibular Cláudia Silva Ferreira, iniciativa de educação popular que oferece aulas para moradores que estão em busca de acessar o ensino superior.


Jovens orientam moradores no Jardim João XXIII, zona oeste da cidade.

As ações iniciais começaram com a distribuição de máscaras e pedras de sabão junto com uma cartilha que traduz informações sobre cuidados contra o coronavírus para uma linguagem não formal e pensada no morador do território. Além desta função, o material também aborda a importância da auto-organização e mostra opções de como se organizar no contexto comunitário neste momento.

Pedro Henrique Fernandes, 23, morador do João XXIII e integrante do cursinho afirma que comunicar de morador para morador é a forma mais potente, e que as pessoas dão mais credibilidade porque sabem quem você é. “Fizemos uma cartilha porque percebemos que as informações que vem do Estado não são muito acessíveis, é algo mais institucional e formal, então fizemos uma direto para o bairro, foi feita de morador para morador e tem um alcance maior e a gente vê que as pessoas acreditam mais quando você é do espaço”.

Fernandes afirma que outra dimensão importante da ação também foi o fato de conversar diretamente com jovens que muitas vezes continuam seguindo suas vidas de maneira normal por acharem que não serão atingidos pelo covid-19. “É uma doença que desde o começo vem sendo colocada que mata só idoso, mas na verdade não mata só idosos, aí muitos jovens têm a ideia de que podem continuar suas vidas normais, a cartilha também coloca a responsa nos jovens, de que mano você está levando esse vírus para os espaços. Vem muito na ideia de responsabilização dos jovens que furarem a quarentena, e também mostrar que tem formas de se organizar como bairro. Independente do Estado, a gente precisa se organizar para continuar sobrevivendo”.

Com o aumento das ações de mobilização de cuidado, o grupo de jovens moradores já estuda a possibilidade de transformar a experiência em uma série de vídeos para as redes sociais. “A gente percebe que depois da ação que se tem um clima muito mais cuidadoso no bairro, está todo mundo de máscara, até porque é uma lei, mas está todo mundo tentando respeitar uma distância. Mas a gente percebeu que no momento que a gente está ali e conversa, existe um choque das pessoas, e agora estamos nos organizando para postar uma série de vídeos produzida pelos moradores que fala sobre as questões do coronavírus junto com questões sociais, como por exemplo, a desigualdade social e o coronavírus”, conta Fernandes.

“São Mateus é um bairro de luta e iremos vencer mais essa batalha”

A ação ‘Graffiti contra a fome’ faz parte da campanha articulada pela rede de coletivos culturais São Mateus em Movimento, que atua na subprefeitura de São Mateus, zona leste de São Paulo. A ação conta com a participação de artistas da região, como Rafael Bone, Cris Rodrigues, Val OPNI e Todd OPNI, para homenagear quem está na linha de frente do combate ao Coronavírus. O coletivo também tem distribuído panfletos informativos com a proposta de conscientizar também aqueles moradores quem não assiste televisão.

“A importância é trazer proximidade do tema, para quem não assiste TV e para quem acha que ainda é um problema distante, mas que na real já está atingindo a quebrada e estamos usando da ideia de panfletos impressos e colocando nas cestas, e estamos estudando a possibilidade de uma agenda de lives e vídeos informativos também para tentar comunicar os moradores principalmente os mais jovens”, relata Rafaela Maiara, 24, moradora de São Mateus e integrante da rede de coletivos.

A moradora conta que as ações realizadas pelo grupo também são um lembrete de resistência e luta no território: “A ação realizada no dia 16/05, Graffiti contra Fome, faz parte da nossa campanha São Mateus Contra a Fome, e foi pensada com os artistas da região para homenagear quem está na linha de frente do combate ao Coronavírus: profissionais da saúde, limpeza e a própria natureza em seus ciclos de cura e resistência imunológica”.

Maiara acredita que a campanha também servirá para mostrar aos moradores a importância de união comunitária. “É um convite para que pensem nisso, no cuidado, em como tratamos o nosso corpo e o mundo em que vivemos. Também é um lembrete de que nós estamos aqui, se ajudando e se cuidando, que São Mateus é um bairro de luta e que iremos vencer mais essa batalha”.

A articuladora comunitária afirma que é de responsabilidade do Estado o fato dela presenciar ainda um grande número de pessoas na rua, e não conseguirem respeitar a quarentena. “Maioria do público que está na rua é o público jovem e a ausência do poder público é a causa de tantas pessoas não respeitarem o isolamento social, única medida capaz de conter a disseminação do vírus. A maioria das pessoas não está na rua por querer, mas por necessidade. O Estado precisa garantir as necessidades básicas para garantir que as pessoas fiquem em casa”.