Complexo Jardim Elba: o futebol de várzea que transforma vidas

Escolinha de futebol no Jardim Elba, zona leste de São Paulo já atendeu mais de 250 crianças em menos de seis meses de atuação. Os jovens atendidos passam pelo processo de formação que envolve o desenvolvimento pessoal, profissional, consciência coletiva e articulação comunitária, como forma de ampliar o seu olhar e a perspectiva sobre o significado do futebol de várzea e a relação com a quebrada.

Por Thais Siqueira 20/12/2019 - 18:54 hs
Foto: Fabiano Savan
Complexo Jardim Elba: o futebol de várzea que transforma vidas
O treinador Valdir Azevedo durante atividade na Escolinha Complexo Jardim Elba, Zona Leste.

Além de paixão nacional e um dos esportes mais populares nas periferias de São Paulo, o futebol de várzea também é utilizado como um instrumento de impacto social e mobilização de moradores, sem restrição de faixa etária e gênero, que reúne crianças, jovens, adultos e idosos a beira do campo nos finais de semana, para confraternizar o amor ao time da sua quebrada.

Um bom exemplo deste cenário da cultura periférica é a escolinha do Complexo Jardim Elba, criada por moradores do Jardim Elba, bairro localizado na zona leste de São Paulo, na divisa com municípios do ABC. A escolinha, formada por crianças e adolescentes que passam pelo processo de formação que envolve o desenvolvimento pessoal, profissional e comunitário, já disputou a Copa das Favelas e recentemente atua num campo de futebol dentro da comunidade, que necessita de apoio para fazer melhorias e receber mais crianças no espaço.

"Muitas crianças chegam achando que vão só jogar futebol. A gente busca ensinar as crianças a se preparar para o mercado de trabalho, por meio de visitas em empresas", conta Valdir Azevedo,  treinador do Complexo Jardim Elba, sobre o processo de  formação da escolinha de futebol. "Fazemos uma educação de convivência, tem muita criança que precisa de carinho. Os pais ficam fora pra trabalhar e elas sentem falta de atenção, a gente encosta, abraça, dá um beijo e eles ficam perto da gente".

Valdir é morador antigo da quebrada, ele reside  no Jardim Jaú, bairro próximo ao campo  do  Complexo Jardim Elba. Aposentando, ele é cadeirante há mais de 30 anos. Em 1976, ele iniciou um  processo de  amputar  os dedos da perna e da mão, devido  ao  desenvolvimento de uma doença que o levou a  cadeira de rodas.  No entanto, essa condição física não o limitou a pensar, agir e colocar algo em prática para mudar a  vida de crianças e jovens da sua quebrada.

"Eu tinha uma escolinha desde 96 e depois do falecimento do meu amigo Gazela que faleceu há 14 anos, eu dei um tempo, porque não conseguia continuar", relembra o treinador, fazendo uma referência ao Gazela,  ex-jogador e morador do Jardim Elba, que é  considerado um símbolo de inspiração do futebol de várzea da região.

Em 2018, Azevedo voltou a ativa com a prática  de organizar  uma   escolinha de futebol, ao lado do seu novo parceiro, Reginaldo Gavis após o lançamento da Taça das  Favelas, um campeonato de times formados   apenas por adolescentes,  o que o  motivou a inserir também o seu neto em uma peneira para  disputar o  campeonato.

"A gente montou uma nova escolinha para fortalecer a comunidade. Em 5 meses já passaram 250 crianças. Nosso objetivo é fortalecer as crianças e os seus pais que também participam e interagem com a gente, com os eventos", afirma Azevedo.

As escolinha funciona das 9h ás 11h e das 13h30 ás 17h30 com  treinamentos em dias  de terça-feira e quinta-feira. Além de oferecer um espaço  de produção de conhecimento e aperfeiçoamento esportivo, a escolinha fornece aproximadamente 120 lanches aos jovens, para mantê-los  focados no treino e com condições de dar o melhor  de si.

Para participar da escolinha, as crianças que moram   no território  precisam preencher uma ficha para cadastro e verificar se o horário dos treinos não interfere nos estudos. A  partir dos 5 anos já é possível  se  inscrever no Complexo Jardim Elba. A idade limite é 17 anos.

O treinador finaliza enfatizando a missão do Complexo Jardim Elba com as crianças da quebrada: "nosso objetivo não é fazer jogador, mas sim, tirar as crianças da rua para não entrar na criminalidade."

Pense Grade Sua Quebrada

O  concurso Pense Grande  Sua  Quebrada  enxergou em fotografias que retratam projetos como o Complexo Jardim Elba a  potência e a importância de pessoas  e iniciativas que visam transformar a sua quebrada, a partir de ideias que impactam positivamente as pessoas.

 

Os ganhadores do concurso registraram mais do que uma imagem, retrataram uma visão de mundo.  Entre os vencedores está o jovem Fabiano Savan,  25  anos,  que  cresceu nas ruas do bairro do Jardim Elba, zona leste de São Paulo. Quando completou 18 anos, Fabio descobriu sua grande paixão, a Arte Cênica. “Cheguei a fazer curso técnico de administração, mas sentia um vazio, como se nada daquilo fizesse muito sentido pra mim” relata. 

 

Segundo o jovem, o interesse pelo teatro surgiu quando ficou sabendo que ao lado da sua casa existia um espaço focado em cultura, a Fábricas de Cultura de Sapopemba. A partir desse momento passou a se interessar por teatro e ingressou na SP Escola de Teatro. “Eu sempre gostei do universo cultural, do teatro, mas não sabia como expor o que eu realmente sentia e gostava”. 

 

“Quando resolvi mudar da área administrativa para a arte cênica, meu pai não conseguia compreender que eu estava projetando o meu futuro, porque na cabeça dos meus pais, eu precisava trabalhar, para eles, a carreira artística não era vista como um ganha pão”, conta o jovem  que durante esse período de descoberta e tomada de decisão para focar no que realmente queria fazer, enfrentou muitos obstáculos e dificuldades para mostrar para os seus pais que ser artista era uma profissão. 

 

“Hoje em dia, tudo mudou. Meus pais passaram a compreender o meu trabalho, quando foram me assistir em um peça e me viram atuando. Além disso, eu comecei a me interessar por audiovisual e fiz um trabalhos nessa pegada também”. 




#PenseGrandeSuaQuebrada é um esforço coletivo do Programa Pense Grande, iniciativa da Fundação Telefônica Brasil , em parceria com o Alma Preta Desenrola E Não Me Enrola, Historiorama Periferia em Movimento e a Agência Mural de Jornalismo das Periferias com o objetivo de democratizar a linguagem e o acesso das juventudes periféricas ao ecossistema de #EmpreendedorismoSocial.