“Um novo mundo é possível”, morre Soró, líder da Comunidade Quilombaque de Perus

Educador, ativista cultural e figura importante da zona noroeste de São Paulo, Soró morreu nesta quarta-feira (30), quando organizava atividades coletivas.

Foto: Léu Britto
“Um novo mundo é possível”, morre Soró, líder da Comunidade Quilombaque de Perus
Soró foi cofundador do Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Perus

“Quando alguém vai deste mundo a gente chora, chora, chora, chora. Quando alguém vem pra esse mundo a gente canta eu vou cantar eu vou, ooooooo irê irê irê, ooooooo irê irê irê…”. 

O ponto de jongo, sempre entoado no quintal da Comunidade Cultural Quilombaque, hoje é cantado a tons tristes, abraçando as saudades daqueles que ficam, diante da partida de José Soró, 55, um dos pilares da organização, que morreu na tarde desta quarta-feira (30), após uma parada cardíaca. 

“É com muita dor que nós informamos aos amigos e parceiros que nosso mestre José Soró fez sua passagem”, disse a Quilombaque em texto divulgado pelas redes sociais. O ativista cultural morreu ali mesmo, em seu terreiro, quando o grupo se preparava para ir a um sarau sobre saúde da população negra. 

“O mais sábio de todos. O que sabia nos dizer aquilo que precisávamos ouvir. Que nos ensinou  a lutar pelos nossos sonhos e ideais”, fala ainda a nota de pesar. 

Casado com Valéria Pássaro, pai de Ana, Matheus e Pedro, Soró foi vítima de uma parada cardíaca aos 55 anos. Para além da família, Soró deixa uma legião de jovens e adultos órfãos de seus ensinamentos pelos territórios periféricos, principalmente na região noroeste, onde o educador paulo-freireano sempre enxergou as pessoas além e sonhou “que um novo mundo era possível” e as periferias o estavam construindo. 

O velório será às 21h desta quinta (31)e o sepultamento às 9h da sexta (1º/11), no Cemitério Dom Bosco, na Estrada do Pinheirinho, em Perus.

Créditos da Foto: Lucas Veloso/Soró em ruas da zona norte

FERVE TERRITÓRIO

Soró foi um dos principais sujeitos na construção de um território de cultura na região noroeste. Sempre mirando o futuro e autosustentabilidade do povo pobre e negro, ele realizava cursos voltados aos Direitos Humanos. A atividade inspirou o nascimento de muitos coletivos e organizações em Perus. 

Além da Comunidade Cultural Quilombaque, onde atuava de forma mais constante, o articulador foi um dos idealizadores da Ocupação Artística Canhoba e da Ocupação Casa Hip Hop Perus, pois dizia que cada canto do bairro peruense deveria estar banhado de arte e cultura à população. 

Desde 2014, é um dos principais expoentes a colocar em prática a tecnologia social do Território da Cultura e da Paisagem, contida no Plano Diretor da cidade paulistana. Idealizou junto à Quilombaque, as trilhas da memória, um projeto de ecoturismo social com os principais pontos de resistência e luta da região. 

Ele juntava os bairros, colocava as aldeias indígenas do Jaraguá para conversar com o terreiro da Quilombaque, e fazia os movimentos conhecerem a luta pela terra do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, no acampamento Irmã Alberta. 

Soró também levava os ensinamentos da região para outros cantos da cidade. De norte a sul da capital, dizia como os peruenses estavam fazendo o bairro se movimentar e gerar renda internamente. A “sevirologia”, que é a arte de se virar, estava sempre presente nas falas de José, inclusive horas antes de sua morte. “Ele chegou dizendo: hoje a gente vai fazer a sevirologia na prática”, contam os integrantes da Quilombaque.

Créditos da Foto: Leú Britto/Soró durante a formação da Rede Jornalistas das periferias na Casa Ecoativa

TRAJETÓRIA

Soró chegou em São Paulo, como migrante, vindo do Mato Grosso do Sul, Centro-Oeste, na década de 1970, com mais cinco irmãos menores e a mãe, após a morte do pai. Na capital, foram ajudados por um tio, chamado Gervázio.

Além da ajuda do tio, Soró contou com o auxílio de uma família na região e de seu Joaquim, um pai de santo de um terreiro de umbanda. Mesmo pequeno, o menino percebeu que havia uma solidariedade de conterrâneos, e de modo geral dos migrantes, que eram absoluta maioria em Perus e em toda a periferia da cidade.

Atualmente, trabalhava como educador, consultor em desenvolvimento humano e mediador de conflitos relacionais. 

Soró passou muitas dificuldades financeiras com a família, quando chegou em São Paulo. As CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), as pastorais da Igreja Católica, além de movimentos culturais e militância partidária foram alguns dos caminhos adotados para buscar uma vida melhor para si e à comunidade.

“Eu vejo que por mais que erros tenham sido cometidos por essa geração, que as mudanças e os avanços não tenham sido suficientes, estes golpes que atualmente sofremos é uma reação da elite colonialista às conquistas e avanços que fizemos. E é de extrema importância considerarmos isso para não sucumbirmos ao desespero”, avaliou Soró, em entrevista concedida ao portal Alma Preta, em outubro deste ano.

Durante a trajetória profissional, desistiu de empregos, pois buscava aliar o trabalho em atividades que acreditava. Teve diversas experiências, sendo a defesa e a garantia dos direitos de crianças e adolescentes a mais relevante para ele. Por alguns anos foi Conselheiro Tutelar, trabalhou com população nas ruas. 


HOMENAGENS

Entre os membros do movimento social e cultural das quebradas, a notícia chegou com tristeza, traduzidas nas palavras escritas pelos amigos. 

O educador Sócrates Magno afirmou que acordou com a notícia de que ‘um grande amigo, educador, defensor incondicional dos direitos humanos, deixou esse plano’.

“Muita gente se afetou com seus aprendizados sempre carregados de muita humildade, mas cheios de fundamentação e ‘firmeza permanente’”, relembra.

“Soró era um ajuntador de pessoas, lutava por causa (im) possíveis”, definiu Thalita Duarte, do Grupo Pandora.

“Fará falta demais compadre. Grande parceiro na Ocupação Artística Canhoba. Sonhou junto com a gente cada pedacinho desse sonho”.

Soró nunca foi linear. Quem já o ouviu falando em mesas e rodas de conversa, sabe que não economiza no encontro de palavras e, por isso, nunca se deu muito com o tempo cronológico, contado, das normalidades. 

E, por isso, sua memória e história ficam agora nas periferias de São Paulo, inspirando que é possível um novo mundo. “A única alternativa é se agrupar, criar mecanismos de sobrevivência e resistência, vivos, tanto quanto nosso ideário”, dizia.