A influência da literatura periférica para formar crianças leitoras

Experiências de pais e filhos que moram nas periferias de São Paulo mostram como a literatura pode ser inserida no cotidiano das crianças, para desenvolver um gosto natural pela leitura.

Por Evelyn Vilhena e Flávia Lopes 11/11/2019 - 11:00 hs

A influência da literatura periférica para formar crianças leitoras
Pedro Nascimento (11 anos), Isis Santos (8 anos) e Cecília Souza (9 anos)

Dados da última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2015, mostram que o hábito da leitura de um terço dos brasileiros teve a influência da mãe ou responsável do sexo feminino, além de professores. A pesquisa também indica que essa influência contribui no fato do indivíduo ser ou não leitor, sendo que 83% dos não leitores não receberam a influência de ninguém.

A criação do hábito da leitura e o acesso ao livro pode ser construída a partir de diferentes conceitos de literatura e é importante ser estimulado desde a infância. Exemplo disso é a literatura oral, que está presente desde os primeiros meses de vida e contribui na inserção das crianças dentro do universo literário, na introdução da linguagem e com o passar dos anos na fabulação, capacidade de fantasiar e criar histórias.

“Quando você tem o contato com a produção de histórias, seja na linguagem oral ou também na escrita através dos livros, amplia-se a sua leitura de mundo por vivenciar outras vidas e outras formas de viver”, compartilha Mara Esteves, mediadora de leitura e co-gestora da  Biblioteca Comunitária Djeanne Firmino.

Essa capacidade de criar e imaginar novos universos está presente na vida de Cecília, que com 9 anos, moradora do Campo Limpo, região sul de São Paulo, se identifica com os personagens dos livros que lê, e acaba entrando na história: “Eu acho que o livro me ajuda em várias coisas. Quando eu vou dormir eu leio um pouco, aí de repente eu tenho um sonho com esse livro onde eu estou dentro dele, e sou amiga dos personagens”, conta a pequena leitora, que tem a influência dos pais nessa aproximação da literatura, desde os livros que lê, até os espaços que circula, como saraus e eventos de literatura na periferia.

O movimento literário das periferias proporciona algo que vai além da criação de novos universos e histórias na infância: possibilita a inserção das crianças em espaços como saraus, slams e feiras literárias, que as enxergam também como consumidoras e produtoras de conhecimento, além de criar referências próximas a essas crianças. “As vezes pego um livro, acho que é do Sarau do Binho, eu fico só lendo as poesias. Tem poesias da minha mãe, do meu pai, tem dos meus amigos, dos amigos dos meus amigos”, conta Cecília, filha da artista e produtora cultural Dêssa Souza e do fotógrafo Will Cavagnolli.

“Vejo esses movimentos deixando com que as crianças convivam com os adultos no meio da literatura. É um sarau que está acontecendo em uma segunda-feira a noite e as crianças estão lá”, ressalta Mara sobre a importância desses espaços construídos por moradores e articuladores dos territórios periféricos.

A literatura periférica influenciou muitos pais que hoje apresentam para seus filhos autores do próprio território e fazem com que o processo de autodescoberta e desenvolvimento das crianças, seja diferente daquilo que vivenciou. Juliana Santos, arte-educadora e poetisa, é um desses casos: se aproximou do movimento literário da periferia através de pessoas que possuíam ligação com o Sarau da Cooperifa, e então passou a se interessar mais pelo o que chama de literatura viva, que está além dos livros.

“Na verdade, eu acho que a influência está muito vinculada à ideia de literatura que está fora do livro, de ouvir histórias que passam por mim. Minha avó era uma contadora de histórias. Ela era analfabeta, mas eu digo que ela foi a minha primeira incentivadora na literatura, de tanto que eu ouvi ela contar histórias”, relembra Juliana, moradora da zona sul de São Paulo, que hoje além de ler para sua filha Isís, também narra histórias da sua família para a pequena.

Isís Santos, 8 anos, filha da poetisa e pedagoga Juliana Santos e do fotógrafo Fernando Solidade, conta que os personagens dos livros que lê se parecem muito com ela, principalmente os cabelos cacheados, mas ressalta que esses personagens também a remetem ao avô que não conheceu, mas a partir das histórias de sua mãe sobre ele, consegue identificar  semelhanças: “A maioria nesse livro é gente negra, eu gosto bastante. Isso lembra minha mãe, meu avô que eu não conheci, só vi uma foto dele, mas lembra ele também.”

Bibliotecas Comunitárias: a construção coletiva da leitura

Outro importante local de formação de pequenos leitores desde a infância são as bibliotecas comunitárias. Elas se tornaram espaços que apresentam para as crianças o livro não apenas como um objeto, mas como caminho possível  para aflorar os diversos mundos presentes nas crianças. Hoje são fundamentais como locais de construção coletiva de conhecimento e acesso a outros universos e imaginários.

Na zona sul de São Paulo, levando em consideração os distritos do Capão Redondo, Campo Limpo e Jardim Ângela, existem menos de 20 bibliotecas e pontos de leitura em locais públicos para atender mais de 700 mil de moradores, conforme dados disponíveis no site da Prefeitura de São Paulo. A Rede LiteraSampa é um dos exemplos de mobilização coletiva que tem contribuído no acesso de crinaças e adultos aos livros. Sem apoio do poder público, a Rede mantém mais de 10 bibliotecas comunitárias nas periferias de São Paulo, Mauá e Guarulhos a partir da união de esforços de organizações territoriais. Essa construção conjunta também contribui na formação dos moradores com oficinas de mediação de leitura.

“Não temos todas as cidades do Brasil com bibliotecas públicas, então as bibliotecas comunitárias nascem desse vácuo, dessa ausência de políticas públicas, ausência do Estado. O Estado chega por outros meios nas periferias, mas não para validar um direito, que é o direito humano à leitura”, frisa Mara que é co-gestora da Biblioteca Comunitária Djeanne Firmino, importante espaço para os pais e crianças na região do Campo Limpo e que integra a Rede LiteraSampa.

“Eu gosto muito quando eu vou para uma biblioteca, só que às vezes não dá muito tempo, só dá tempo de ler 1 ou 2 livros, aí já tenho que ir embora”, conta Isis. Isis e Cecília frequentam as bibliotecas comunitárias do território que além de atividades de leitura possuem uma programação de atividades e oficinas que são importantes para a formação das crianças do seu entorno.

 Assista a reportagem completa do projeto #NoCentrodaPauta produzida pelo Desenrola e Não Me Enrola:


Esta reportagem faz parte do projeto #NoCentroDaPauta, uma realização dos coletivos Alma Preta, Casa no Meio do Mundo, Desenrola E Não Me Enrola, Imargem, Historiorama, Periferia em Movimento, TV Grajaú - SP, DiCampana Foto Coletivo e Nós, mulheres da periferia, com patrocínio da Fundação Tide Setubal