Moradores do Jardim Ângela marcham pelo direito à vida das mulheres

Um grupo de cerca de 200 moradores ocupou a Estrada do M´Boi Mirim na noite desta quinta-feira (14), durante um ato que relembrou a morte da vereadora carioca Marielle Franco.

Por Da Redação 14/03/2019 - 22:17 hs
Foto: Thais Siqueira

Após um ano da morte de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em 14 de março de 2018, um grito de resistência da população periférica passou a ecoar o seu nome em favelas e periferias de todo o Brasil. Nesta quinta-feira (14), em diversas cidades brasileiras, manifestantes percorreram ruas e avenidas em atos para homenagear e lembrar a memória da vereadora.

No distrito do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, enquanto moradores chegavam do trabalho e desciam no ponto de ônibus, localizado em frente à base comunitária da polícia militar, no centro do distrito, outro grupo de moradores, em sua maioria representado por mulheres e lideranças comunitárias, com cerca de 200 pessoas, se concentravam ao lado da base da polícia para dar inicio ao ato - Marielle Vive, Nós Também! Pelo direito à vida das mulheres! -, organizado pelo Fórum em Defesa da Vida, uma articulação de organizações sociais que militam por políticas públicas que visam pautar direitos humanos, e a Casa Sofia, um Centro de Defesa e de Convivência da Mulher, que atende mulheres em situação de vulnerabilidade no território do Jardim Ângela.  

Veja aqui a cobertura completa do ato.

 Ao longo do ato que circulou pela estrada do M´Boi Mirim e ruas paralelas à avenida, as mulheres entoaram falas contra o feminicídio e a constante luta pela garantia de direitos. A escritora Jennifer Nascimento, integrante da coletiva Fala Guerreira que atua na região, acompanhou o trajeto e ressaltou o quanto está sendo importante manter viva a memória de Marielle. 

“Acho importante estarmos aqui na quebrada do Jardim Ângela, tristes mas com a memória viva de Marielle, porque nesse território muitas mulheres são mortas, muitas mulheres negras são assassinadas, e nós estamos de olho, sabemos o que está acontecendo e não podemos nos calar”, conta a escritora, que em todo o seu repertório de atuação busca estabelecer laços de afeto e cuidado, abordando questões de gênero no território.

Atenta ao movimento de inúmeros grupos de mulheres que participavam do ato, a escritora ressaltou: “a voz dela foi silenciada, porque aquilo que ela fazia de denunciar o Estado, denunciar a polícia é muito perigoso. A morte da Marielle foi um salve pra gente ficar esperto, mas se eles queriam nos calar, não conseguiram.”


Marielle foi socióloga, feminista e defensora dos direitos humanos. Eleita em 2016 como vereadora do Rio de Janeiro, ela só precisou de 90 dias no cargo de parlamentar para entregar o seu primeiro projeto de lei, uma proposta que previa a garantia de tratamento humanizado para as mulheres que conquistaram na Justiça o direito de realizar o aborto.

Essa agilidade e senso de urgência que Marielle emanava em suas ações políticas, ainda permanecem como um legado das mulheres das periferias. Sejam elas acadêmicas, militantes, artistas, líderes comunitárias ou donas de casa.  “Somente no mês de janeiro desse ano 119 mulheres foram vitimas de violência de companheiros. Esse é o numero conhecido. E quantas outras não são conhecidas?”, questiona o padre Jaime Crowe, militante dos direitos humanos que há mais de 30 anos atua na região do M´Boi Mirim.

O ato foi encerrado na Paróquia Santos Mártires, onde uma corrente de oração foi realizada em homenagem à Marielle durante uma missa ministrada pelo padre Jaime.

Agentes de serviços sociais, atuantes na região da M´Boi Mirim que atendem mulheres e jovens, também marcaram presença no ato e denunciaram à população o processo de desmonte desta política pública de assistência social, que está sendo articulado pelo governo municipal de São Paulo. Um grupo de organizações e movimentos sociais, como a Sociedade Santos Mártires, Anistia Internacional, Marcha Mundial de Mulheres Negras e o Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (CDHEP) reforçaram essa denúncia ao longo do ato.