Opinião Colunas

A periferia do esperançar

Em um dos momentos mais difíceis que já vivemos na periferia a esperança floresce, ela tem rostos, tem histórias, tem lágrimas e tem muitas mãos. 
Foto: Pedro Oliveira

Mês passado, tivemos a comemoração dos 99 anos de Paulo Freire na América Latina, mesmo remotamente pude observar e refletir que a periferia exerce na prática esse esperançar, somos as manifestações mais puras do não desistir, do lutar, de pensar coletivo.

Ano passado, observei muita desesperança. As pessoas viam uma perspectiva onde tudo só poderia piorar. Contudo, com tantos jovens de periferia na universidade, com tudo que os coletivos conseguiram mobilizar para manter a periferia viva neste momento, com tantas histórias que não estão na televisão porque não falam de morte, não falam dos nossos números de morte, eu não acredito que tudo acabou.

Relembrando a construção da periferia vemos que construímos tudo sozinhos, nossas casas, nossas ruas e nossos comércios, na década de 90 o Jardim Ângela foi considerado o bairro mais violento do mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU) com uma taxa de homicídio de 98 para cada 100 mil habitantes. A partir de iniciativas dos próprios moradores e de instituições como a Sociedade Santos Mártires, CDHEP – Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo e organizações como associações de bairro a violência diminuiu e foi possível sonhar com mais calma.

Desde lá conquistamos muito e nos tornamos referência em cultura, em luta popular e agora podemos ver os nossos também na universidade. Quando relembro tudo isso só penso em Paulo Freire. O que mais seria o seu legado se não luta, educação popular e coletivo? A esperança mora no olhar dos jovens vendo seus amigos na universidade, no cuidado dos pais que choram ao ver que seu filho realizou um sonho mesmo sendo difícil e na nossa constância de revidar as violências do Estado de forma forte, prática e ativa.

Na periferia mora também a filosofia Ubuntu, uma filosofia africana que fala sobre a humanidade ser o coração da unidade, a periferia é seu próprio coração e pulsar, somos coletivo e por isso ainda estamos lutando para que os nossos vivam. Nós ainda vivemos a incerteza e tristeza da falta de políticas públicas, contudo também enxergamos uma luz por todas as conquistas que já tivemos.

A esperança mora em cada beco e viela onde crianças correm, riem e brincam, onde jovens felizes voltam para casa, onde pais voltam cansados do trabalho.

É difícil ter esperança vendo que ainda somos os que mais morrem, os que mais lutam e os que estão no fronte da vida, porém a esperança de Freire nos trará justamente essa perspectiva de não desistir, de continuar e transformar no coletivo. Esse texto além de ser uma forma de lembrar o legado da Educação Popular que valoriza os saberes da periferia e que se constrói com lutas, é também um texto para que não esqueçamos que o opressor já não domina completamente nossos corpos, não ficamos parados, a periferia jamais parou.

O único violento é o Estado!

Em 2020, tivemos um recorde de mortos pela PM, mesmo com a quarentena que retirou boa parte da população das ruas o Estado seguia matando pela falta de assistência no combate ao COVID-19 e também nas abordagens policiais que inclusive foram violentamente feitas contra crianças negras. Nessa história, a periferia nunca foi a fonte da violência e sim o Estado. Parece estranho pensar que o governo durante uma pandemia se ocupou em privilegiar empresários e quem supriu as necessidades da periferia foram organizações voltadas e construídas para e por ela.

Em meio a tanta violência ainda é possível sonhar? Apesar de todas essas violências acontecendo juntas eu vejo uma esperança muito grande no que já fizemos e estamos fazendo. Semana passada ouvi um audiolivro feito pelo coletivo O Corre que se chama "O inimigo invisível" e conta uma história que em meio a uma pandemia possuí esperança. Além disso ele informa as pessoas e promove um reconhecimento. Eu me vi em cada personagem da história e isso não poderia me gerar outro sentimento que não esperança.

Em meio à crise causada pelo descaso do governo, os cursinhos populares fizeram um trabalho potente em manter a esperança viva e eu vi Paulo Freire em cada um desses coletivos, eu vi o esperançar em cada uma dessas quebradas, nós somos uma potência!

Eu insisto em dizer que o sonho mora aqui, o sonho mora no Jardim Vera Cruz, no Jardim Horizonte Azul, Jardim Capela, Jardim Jacira, Jardim São Luís, Capão Redondo, Morro do Índio, Campo Limpo e em tantas outras quebradas do sul, leste, oeste e norte.

A esperança mora em você que tirou um tempo para ler até o final. O esperançar de Freire vive e cresce na periferia! Somos luta, coração e transformação.

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Comentários: 1

Douglas Stenferson em Quarta, 04 Novembro 2020 01:10

Penso que o esperançar em muito tem a ver com a Ubuntu... É sonhar, juntos, coletivamente, que ainda há sonhos a serem realizados... Ainda há batalhas a serem vencidas... Ainda há opressores a serem enfrentados... Mas, ao invés de como sempre, subjugados, dessa vez, especialmente dessa vez, temos a força de levantar a cabeça, olhar nos olhos de quem nos oprime e falar, hoje não.... Hoje eu que sonhar, quero lutar, quero vencer, quero esperançar... Ubuntu pra Nóis minha querida Agnes.

Penso que o esperançar em muito tem a ver com a Ubuntu... É sonhar, juntos, coletivamente, que ainda há sonhos a serem realizados... Ainda há batalhas a serem vencidas... Ainda há opressores a serem enfrentados... Mas, ao invés de como sempre, subjugados, dessa vez, especialmente dessa vez, temos a força de levantar a cabeça, olhar nos olhos de quem nos oprime e falar, hoje não.... Hoje eu que sonhar, quero lutar, quero vencer, quero esperançar... Ubuntu pra Nóis minha querida Agnes.
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