Batalhas de rima criam espaços políticos no Jardim Ângela

A ocupação de espaços públicos e a inclusão de discussões sobre gênero e racismo são alguns dos legados consolidados por jovens que articulam manifestações culturais no território onde vivem

Por Ronaldo Matos 16/05/2018 - 15:00 hs
Foto: Thais Siqueira
Batalhas de rima criam espaços políticos no Jardim Ângela
Jovens ocupam praça do Bambuzal no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo.

Os coletivos A irmandade, Periferima, Empodere Cinego e Genkidama estão utilizando batalhas de rima e a cultura hip hop para difundir informação de cunho político e social para a juventude e os moradores dos bairros do Jardim Caiçara, Jardim Kagohara e Jardim Dionísio, territórios do distrito do Jardim Ângela, na Zona Sul de São Paulo.

Enquanto as decisões sobre a aprovação e implantação de políticas públicas são tomadas nos gabinetes pelos representantes do poder público brasileiro, nas periferias de São Paulo os jovens se engajam em promover encontros de conhecimento. Ocupando espaços públicos, descobrem a importância do direito à cidade por meio da realização de batalhas de rima.

Confira abaixo a reportagem completa.

Ocupação e transformação urbana

O processo de troca de saberes populares e de transformação de praças e quadras em espaços políticos é crescente entre jovens moradores de territórios periféricos, locais que historicamente são desprovidos de equipamentos culturais públicos.

A realização das batalhas é um fenômeno social que mudou a imagem de alguns locais do distrito do Jardim Ângela. “A gente está usando um espaço público que é uma praça que estava parada, sem nada acontecendo, e movimentamos um pólo cultural nesse espaço. Esse é um serviço que os nossos políticos deveriam fazer pra gente”, conta Jefferson Portugal, conhecido como Jotapê, integrante do coletivo Genkidama e organizador da Batalha das Quadras, no Jardim Kagohara.

No centro do distrito do Jardim Ângela está localizado o Jardim Dionísio. Apesar de ter sido ocupado pela população desde a década de 50, o bairro passou por profundas transformações em sua urbanização, como pavimentação de ruas e encanamentos de água e esgoto entre 1997 e 2000. No bairro há apenas uma creche para atender as famílias cujos pais precisam trabalhar. Ao lado dela se encontra o projeto Cio da Terra, organização social que sedia a Batalha do Dionísio. A jovem Lorrana Lisboa,16, é uma das organizadoras do evento e defende sua relevância para dar voz à juventude local. “Nós organizamos a batalha para o público jovem ter uma voz. Porque assim como eu preciso de uma voz, eles também precisam”, enaltece a integrante do coletivo A Irmandade.

Um dos distritos mais populosos da cidade, o Jardim Ângela tem 295.434 mil habitantes, segundo dados atualizados em novembro de 2017 pela Prefeitura de São Paulo. Junto ao distrito de Jardim São Luis, que possui mais de 267 mil moradores, eles formam a prefeitura regional de M´Boi Mirim. Atualmente, o distrito do Jardim São Luis concentra uma Casa de Cultura Municipal e uma Fábrica de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo para atender mais de 550 mil habitantes, fator demográfico e político que impossibilita o acesso da população a esses espaços.

Juventude, cultura e resistência

Com forte vocação para ecoar as vozes da juventude periférica, as batalhas de rima se afirmam na cultura hip hop para discutir, denunciar, problematizar e compartilhar conhecimento sobre o cotidiano de quem mora em territórios da cidade que têm nas suas raízes a ausência de políticas públicas.

Outro legado já consolidado das batalhas é a inclusão de discussões sobre racismo, gênero e a presença feminina nas atividades. A articuladora cultural Magda de Sousa, integrante do coletivo Empodere Cinego, atua como fotógrafa e mediadora de batalhas dedicadas às mulheres. Durante a sua participação na Batalha do Bambuzal, na qual ajuda na organização, enfatiza algumas características marcantes dos eventos: “As batalhas que acontecem no território do Jardim Ângela são diferenciadas porque não têm racismo, não têm homofobia. Todo o contexto é político, não por ser imposto, mas porque já é uma característica entranhada nos jovens.”

A marcante presença de adolescentes e moradores nas batalhas demonstra o impacto e a transformação social causada pelos coletivos que organizam essas ações na região. Um exemplo desse perfil de público é a MC Fran, 16, integrante do coletivo Encrespados que mora numa ocupação habitacional próxima à estrada da M´Boi Mirim e iniciou sua participação no movimento das batalhas sob os olhares atentos da mãe. Antes da sua apresentação, ela relatou a importância do encontro dos jovens para a troca de conhecimento político:“Aqui eu vejo que tem muito jovem com potencial de explicar para outros jovens e até mesmo pros seus pais o que é política, pois a gente falando do nosso jeito, qualquer pessoa pode entender, porque a política está no nosso dia dia. É uma coisa que a gente vive e aprende diariamente.”

“As batalhas de rima têm um potencial enorme para politizar os jovens. Quando eles ocupam esses espaços públicos, eles estão fazendo o papel do direito à cidade. Na prática isso é maravilhoso, ainda mais ocupando esses lugares com rimas e poesias. Além de ser direito à cidade, também é poetizar a cidade”, define o pesquisador e ativista Cultural Fernando Ferrari, integrante do Movimento Cultural das Periferias e morador do território.

Magda lembra que o fato de ter poucos espaços públicos de cultura na região torna ainda mais legítima a ocupação das praças e quadras para a realização das batalhas: “A gente precisa de uma condução para chegar na Casa de Cultura mais próxima daqui. Então eu me reconheci muito dentro do território querendo circular, porque esse rolê é representativo pra mim, justamente pela falta de acesso a cultura que o Jardim Ângela tem,” argumenta.

O acesso a espaços públicos culturais na cidade de São Paulo se relaciona diretamente com a desigualdade social presente nos grandes bolsões populacionais do município. Em pesquisa realizada recentemente pela Rede Nossa São Paulo, os dados revelam que 24% da população não usufrui de acesso a nenhum dos equipamentos pautados no estudo, como cinemas, centros culturais, shows, museus, teatros e bibliotecas. Outro fator demográfico significativo é o fato dessa parcela de habitantes ser menos escolarizada, ter uma renda familiar de até dois salários mínimos e ser preta ou parda.