Feira de Economia Solidária exalta identidade africana e indígena no Campo Limpo

O evento aconteceu durante a terceira edição do Festival Percurso, iniciativa que visa estimular o crescimento da economia solidária e destacar a diversidade cultural da periferia de São Paulo.

Por Taynara Carmo e Júlia Cruz 03/08/2016 - 11:57 hs
Foto: Joice Soares

Um dos destaques da terceira edição do Festival do Percurso foi a realização da Feira de Economia Solidária, iniciativa que reuniu mais de 50 expositores, para comercializar produtor e serviços que representam a diversidade cultural e étnica da periferia de São Paulo. O evento foi organizado no mês de julho, na Praça do Campo Limpo, zona sul da cidade, por meio de uma parceria com a Agência Popular de Cultura Solano Trindade e a União Popular de Mulheres do Campo Limpo.

Em meio aos diversos tipos de artesanato, artes plásticas, quadros, acessórios, vestimentas e comidas típicas, comercializadas pelos expositores, a relação com a cultura africana e indígena estava sempre estampada nos artigos e no público presente no evento.

O pirógrafo Rafael Douglas, expositor da Feira de Economia Solidaria, conta que abandonou seu emprego registrado para viver de arte por ser amante da cultura africana. Em parceria com sua esposa Carol Rocha, ele vive hoje de artesanato e tenta passar sua mensagem através da pirografia. “A pirografia é uma arte milenar que exige muita paciência. Mas eu gosto disso. Gosto de ver produtos brutos ganhando forma. Pirografar me proporciona isso”, explica.

capa_2Os quadros do expositor revelam sua paixão por animais e por ídolos que marcaram a história da resistência negra no mundo. “A África é o nosso berço. Até mesmo um branco é miscigenado. Temos que valorizar nossos ancestrais e aqueles que lutaram por nós”, destacou, enquanto segurava um quadro de Nelson Mandela.

Tanto os quadros feitos à mão, como o nome da empresa de Rafael (Ewaci Artesanatos), fazem referência aos Orixás africanos. Ele explica que apesar de já ter passado por muitas religiões e se convertido no Islamismo, a única candomblecista do negócio é sua esposa e que ele não é seguidor de nenhuma religião atualmente.

Outro personagem marcante da Feira de Economia Solidaria foi o Pajé Sebastião, representante da Tribo Guarani de Parelheiros. Ele levou para o evento alguns elementos que são símbolos da cultura indígena e valorizavam a essência do povo nativo do Brasil, como por exemplo, o Arco e Flecha e o Berimbau.

Chamando a atenção de quem passava pela sua barraca, o Pajé conversava com outros integrantes na língua da sua Tribo: Guarani MBYA. Engajado em fortalecer as raízes da cultura indígena na cidade, ele ressalta a forma simples que a tribo emprega para manter viva a criação do artesanato. “Aprendemos desde pequeno mesmo e vamos passando o conhecimento, de geração para geração”, diz ele, enquanto segura em suas mãos um instrumento de percussão utilizado para chamar a chuva.

capa_3Sobrevivendo apenas do artesanato, ele conta que não vende muito e que não costuma ir a muitas feiras. Enquanto empacotava os produtos para ir embora, ele explicava que a máscara de couro de jaguatirica servia para tornar o caçador um guerreiro: “Ele coloca no rosto pra mostrar que é forte, que é guerreiro”. Sem entregar cartões ou divulgar seu trabalho em redes sociais, o Pajé Sebastião e sua Tribo enalteceram suas raízes com a beleza da cultura indígena durante o evento.

A professora de Artes, Maria Aparecida André dos Santos – ou Cida, como prefere ser chamada – conta que pagava o material da sua faculdade com o artesanato e conseguiu realizar o sonho de ser professora por meio da sua arte. Vinda de Itaquera para divulgar seu trabalho no evento, Cida afirma que sua identidade cultural foi construída através da familiarização com o crochê. “Eu sempre gostei de mexer com miçangas e fazia pulseiras. Interessei-me pelo crochê e o resto aprendi com a minha mãe”, afirma.

Hoje, sua empresa “Criativitude”, acrescenta valores econômicos e sociais na população, transformando o tempo livre de uma professora de ensino público e empreendedora da periferia. “Agora com essas novas tecnologias, quero divulgar meu trabalho e acredito que vai ser valorizado com o passar dos anos”, finaliza.