Luz Ribeiro: símbolo de resistência contemporânea da mulher negra periférica

Usufruindo da arte literária para difundir conhecimento e senso crítico, a poeta segue uma trajetória pautada em ativar em outras mulheres negras e na juventude periférica um sentimento de pertencimento e identidade racial.

Por Júlia Cruz 30/11/2016 - 14:02 hs

No mês da Consciência Negra, a figura de Zumbi do Palmares é celebrada e relembrada com orgulho por inúmeros grupos sociais, coletivos culturais e artistas independentes que mantém uma linha de atuação que defende e promove a luta por igualdade racial para o povo preto periférico. No entanto, a figura da guerreira negra, Dandara, esposa do líder de Palmares aparece com menos espaço durante as comemorações do dia 20 de novembro, data que faz referência à morte de Zumbi. E é com base nesta abordagem histórica e sociológica, que a atuação artística de mulheres pretas, como a poeta Luz Ribeiro, revitaliza e consolida a importância do olhar feminino para a formação de cidadãos mais antenados e integrados com a sua realidade social no mundo atual.

Ser uma mulher preta periférica ativista e consciente das suas raízes culturais e políticas nos dias atuais simboliza um ato de bravura e que reforça a importância do feminismo que renasce nas comunidades de São Paulo. Neste cenário, a poeta Luz Ribeiro surge com uma atuação carregada de valores sociais, políticos e culturais provocadores e transgressores, pautados pela luta por igualdade racial e de gênero para a juventude periférica.

“Eu acabei tendo um contato maior com a minha ancestralidade por meio da relação com os Saraus”, conta a poeta, relatando a descoberta da escrita afro centrada. “Falar sobre os orixás, sobre ser mulher negra, sobre a África que é uma escola e um berço para todos nós, acabou sendo algo essencial na minha escrita”, diz ela.

Desde pequena Luz já escrevia por influências da mãe e da irmã, mas somente com 22 anos se descobriu poeta, quando participou pela primeira vez de um sarau literário na periferia de São Paulo. “Eu tinha muito como influência minha mãe, que compunha letras de música e  minha irmã, que assim como eu também escrevia poesias. Com pouca frequência, mas escrevia.”

Luz, que é paulistana, pedagoga, formada em educação física, aspirante à atriz e performer se lançou em 2013 como autora independente e publicou o livro “Eterno Contínuo” onde apresentou poemas lapidados sob o ritmo frenético de “Sampa”, mas com a sensibilidade e força de alguém que não se deixa anular.

Hoje a poeta é uma das idealizadoras do coletivo Poetas Ambulantes, grupo que declama e distribui poesia nos transportes públicos de São Paulo desde 2011, mesclando diversidade  junto aos desconhecidos. Ela também participa ativamente dos coletivos: Slam do Treze e Slam das Minas SP, linguagens artísticas que estão cada vez mais ganhando espaço e jorrando conteúdo cultural para a juventude periférica. Além destes trabalhos, ele também faz parte do trio de música infantil “Luz, Flores e Peixes”, onde a poeta faz apresentações compostas por canções autorais ou covers com ritmos diversos.

Em sua escrita, a poeta buscar retratar suas inquietações políticas e literárias. “Eu falo muito sobre a Periferia e a Juventude Negra, por eu ser uma mulher negra periférica e viver esses caminhos”, revela ela, relembrando nomes de mulheres como, Elizandra Souza, Roberta Estela D´alva, Mel Duarte, Jovelina Perola Negra, Elza Soares, Helen Oléria, entre outras, que são referências na sua trajetória de militância artística e social.

Uma das poesias marcantes de autoria de Luz é “Menimelímetros”, uma narrativa que detalha o quanto suas vivências sociais, culturais e políticas influência a sua escrita. “Essa poesia foi construída totalmente com base nas minhas vivências pessoais. Eu trabalhei durante 6 anos com medidas socioeducativas e atendia adolescentes e jovens, por meio de visitar domiciliares”, descreve ela, apontando a relação de afeto humanitário que construiu com a juventude, ao conhecer de perto a suas angustias e dificuldades de integração social.

Usufruindo da sua arte, a poeta segue adiante, distribuindo pela periferia, nos saraus, nas rodas de conversa, nos slams e pelo centro de São Paulo a sua essência de mulher negra e sua ancestralidade, que hora está presente nos seus versos ou nas suas músicas.